I.                    A PRODUÇÃO DA IMAGEM DE UMA PLANTA





      Se o gesto de plantar já era perverso (Flusser, 2000), o gesto de criar a imagem de uma planta veio acentuar ainda mais a relação de perversidade entre a criação de plantas e a criação de imagens de plantas:

      “A perversidade da relação entre a imagem e o seu referente, o suposto real; a confusão virtual e irreversível da esfera das imagens e da esfera de uma realidade cuja natureza somos cada vez menos capazes de apreender”. (Baudrillard, 1987, p. 13)




      As imagens das plantas iludem o nosso olhar, pois não vemos o que está por trás da sua produção. Enquanto que o número de espécies de plantas tem diminuído, especialmente no último século (Frantz, 2021), o número de plantas para decoração de interiores tem aumentado.

      Por trás da produção de imagens de plantas está um impacto ecológico enorme, e que é triplo, pois em primeiro lugar está o impacto que a criação de plantas ornamentais tem, em segundo, a criação de imagens de plantas, e em terceiro, as estruturas que tornam possíveis a divulgação e partilha dessas mesmas imagens de plantas.







Assim, as imagens de plantas, entram na mesma linha de produção da construção de natureza, contribuindo para modelar a realidade. Para que as imagens de plantas sejam criadas, é necessária a economia que sustenta a produção dessas plantas para serem fotografadas, e as fotografias, por sua vez, geram uma maior produção dessas mesmas plantas; estas duas acções correspondem uma à outra.

























































































II.                A IMAGEM DE UMA PLANTA




Podemos ter dois tipos de encontros com as imagens de plantas:


        1.   O primeiro tipo de encontro é quando encontramos a imagem de uma espécie de planta depois de já termos visto a planta ao vivo (estivesse ela num ambiente natural ou artificial — um bosque, um jardim, um supermercado). Ou seja, a observação da planta vem primeiro do que a observação da imagem dessa planta.

       2.  O segundo tipo de encontro que podemos ter com as imagens das plantas é inverso do primeiro: vemos a imagem da planta antes de vermos a própria planta. Este segundo tipo de encontro é um encontro artificial com a planta, pois como ficamos a conhecer a espécie por meio da imagem, cria em nós um estado de “antecipação da realidade”:



“Quanto à antecipação da realidade pelas imagens, a precedência das imagens e média em relação aos eventos é de tal forma que a conexão entre causa e efeito fica baralhada e se torna impossível dizer qual é o efeito do outro.” (Baudrillard, 1987, p. 18)




    A este segundo encontro fica em latência um terceiro tipo de encontro: encontrar a espécie de planta ao vivo (depois de a ter visto apenas em imagem). No momento em que finalmente vemos a planta, surge em nós a dúvida de “qual delas é que é o efeito da outra”, onde já não sabemos se é a planta ou se é a imagem da planta que veio primeiro.

















        Estas imagens que vêm antes das plantas são criadas fora do nosso campo visual (e por vezes temporal), vêm de fora; o que quer dizer que a maioria das espécies de plantas que vemos em imagens também acabam por vir de fora, não nativas do território onde vivemos. Isto significa que as imagens das plantas têm reproduzido o deslocamento das espécies de plantas iniciado pela separação da natureza.

























III.                 O QUE A IMAGEM DA PLANTA PROVOCA





O que é que as imagens das plantas provocam?


        A imagem de uma planta, por não ser nem a planta nem o nosso olhar  sobre uma planta, cria uma dimensão paralela à dimensão física vegetal. A sua superfície navega entre um e outro (entre a planta e nós) mediando a dimensão física da planta e a dimensão mental humana, criando o seu próprio lugar. É este lugar criado pelas imagens que é o imaginário. Este imaginário pode ser cultural (onde as plantas podem espelhar valores humanos), pode ser capitalista (onde as plantas são objetos decorativos que podem ser comprados) ou científico (onde as plantas são utilizadas como instrumentos de educação).



        As imagens das plantas podem provocar dois tipos de relação:

      A.  Por simularem o olhar sobre uma planta, as imagens das plantas fazem-nos alienar das próprias plantas. À medida que escolhermos ver as suas imagens nas plataformas digitais, estas continuarão a se multiplicar, criamos um ecossistema visual que estimula a sensação de natureza, cada vez mais realista. Podemos ficar presos a esta percepção de plantas e preferir esse olhar digital ao olhar real.


      B.  Por outro lado, como nos encontramos separados da nossa natureza local, as imagens das plantas podem provocar uma reaproximação do nosso olhar com as plantas que nos rodeiam quotidianamente. A imagem de uma planta pode criar um link para a planta em questão, permitindo-nos encontrá-las no mundo físico.





        As imagens das plantas não criam uma resposta automática nem fechada. Como seus usuários, podemos escolher a opção A ou a opção B. Mas o mais provável é que elas aconteçam em simultâneo.







































































Recentemente, pus-me a olhar mais atentamente as plantas que habitam o jardim da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Descobri que a maioria das espécies não são nativas do território português, como as enormes árvores de magnólias em frente ao Pavilhão Carlos Ramos, as arálias japonesas e o bambu na saída do bar, ou as palmeiras espalhadas entre jardins. Neste olhar encontrei, inesperadamente, uma Strelitzia nicolai em conjunto com as bananeiras na entrada do Pavilhão de Escultura e Pintura.



























          Cheguei à conclusão de que o nosso olhar pode devolver a presença real das plantas no nosso mundo.